domingo, 20 de setembro de 2015

Preservativos andantes

Chegámos.
Um gritou, como se não tivéssemos dado por isso:
- Chegámos, pessoal.
Saímos do autocarro aos atropelos, aos empurrões, animais a saírem da jaula...
- Calma, meninos, não tenham medo que ninguém fica aqui...
- Meninos?!, professora? Ah, claro, para os professores e para os nossos pais... somos sempre criancinhas, quase acabadas de nascer.
Fomos saindo e corremos para buscar as mochilas.
O Luís ficou de boca aberta a olhar para os vários preservativos gigantes e coloridos a passearem-se pela rua, numa algazarra descomunal. 
- Hei, Luís, a tua mochila...
Acabou por encolher os ombros e procurar o seu saco no meio dos outros que estavam ali, no meio daquela grande confusão. O Luís estava espantado e surdo, só tinha olhos para aquele grupo de cores chamativas que ia descendo a rua.
No fim, já na posse dos nossos pertences, juntámos-nos aos professores. 
Só restou uma mochila. O motorista chegou-se ao pé do grupo barulhento e disse:
- Alguém se esqueceu desta sacola.
Olhámos uns para os outros, e depois de cinquenta e tais não é minha, não é minha, não é minha... O Zé informou:
- Ah, essa é a mochila do Luís.
Todos os olhos procuraram o Luís. Do Luís nada! Onde está o Luís?, onde pára o Luís?, aonde foi o Luís?, alguém viu o Luís?, mas será que ninguém viu o Luís?, mas onde é que se meteu o raio do rapaz?...
Os olhos alongavam-se até ao horizonte e do Luís nem a mais pequena sombra.
Mais um chorrilho de perguntas retóricas: quem viu o Luís?, alguém viu o Luís depois de sairmos do autocarro?, onde estava?, com quem estava?, estava a fazer o quê?. a falar com quem?...
O Zé, por fim, falou: ele ficou a olhar para uns preservativos andantes, foi o que vi. Às tantas foi atrás deles para ver para onde iam.
O Rafael, sempre danado para a brincadeira, alvitrou:
- Ai, meu Deus, e se os preservativos foram para onde costumam ir!...
E houve sermão e missa cantada: deixa de ser engraçadinho!; tu és parvo ou quê?; um colega teu desapareceu e tu estás com piadinhas!, recolhe o teu espírito, parvo...
A visita de estudo começava bem! 
Os professores dividiram-se: um ficou a tomar conta de nós; outros foram à polícia, outros às informações. 
Mais tarde, apareceu o Luís, todo sorridente, com a professora de História. A professora não sabia se havia de rir ou de mostrar cara de poucos amigos...
E foi assim que uma visita de estudo ficou comprometida, por causa de uns preservativos coloridos, às tantas, com sabores a morango, maçã ou laranja, que se passeavam pela rua e que faziam parte de uma campanha de prevenção.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Há sempre uma ovelha ronhosa...

Olá, Francisco!
Bons olhos me vejam! Obrigada, amigo! É sempre bom sermos recebidos calorosamente.
Novidades? Pois. Não sei se o que tenho para te contar se pode chamar de... novidade! Para mim, novidade é sinónimo de algo bom. O que não é o caso! 
A minha turma recebeu três alunos de NEE e, já sabes como é, há sempre alguém que não concorda que haja alunos destes na turma, que são atrasados, que só nos lixam a vida, porque os professores perdem tempos infinitos com eles... E para quê? Eles não aprendem, eles são burros, eles deviam estar em turmas especiais... mais, em escolas especiais. 
A DT falou connosco sobre a importância da integração destes alunos na sociedade... Falou que nós tínhamos um papel muito importante na vida escolar destes novos colegas... Falou, falou... E tudo o que disse tem lógica e está certo. Ah, a professora falou connosco numa aula em que esses alunos não estavam, para nos preparar, para nos dar a conhecer os seus problemas, e para nós podermos fazer perguntas sem ficarmos inibidos com a presença deles... 
Uma menina é autista, um rapaz tem uma doença degenerativa e soubemos que a todo o momento pode morrer, desloca-se numa cadeira de rodas, não tem força nas pernas... É um dó olhar para ele. Quando falta, fico logo a pensar que não vai voltar, e a professora também fica preocupada, que eu bem vejo ela a olhar para o lugar vago... O terceiro aluno não fala, é mudo, emite uns sons que mais parecem grunhidos e fica desvairado, quando quer comunicar e não consegue fazer-se entender... 
Eles não vão a todas as aulas! 
Depois da DT nos falar sobre estes colegas, houve logo dois alunos que perguntaram se não podiam mudar de turma. A professora não gostou da sua atitude, porque percebeu logo que o problema era os colegas diferentes. Eu olhei-os estupefacta. Que falta de sensibilidade! Todos diferentes, todos iguais! A Rafaela disse que não lhe pedissem para ter paciência com esses... que fossem para outra escola... a Ana concordou com a Rafaela e disse uma série de coisas que nem te vou contar. A professora tentou fazer-lhes ver que estavam erradas, mas foi em vão. Elas disseram que estavam fartas de "défices" e de toda a gente (professores e funcionários) os tratarem como se fossem alunos normais... mas que depois na avaliação... era testes adaptados, perguntas de caracacá, que passavam sempre de ano, sem fazerem praticamente nada, que os professores deviam era dar atenção aos alunos normais e deixar os outros, que só perdem tempo com gente que não aprende... Sei lá! Foi feio e mau o que disseram! Para ajudar à festa, o João e o Daniel decidiram juntar-se à Rafaela e à Ana. Armou-se uma discussão de todo o tamanho na aula e a professora acabou por mandá-los calar de uma vez, avisando-os que não toleraria faltas de educação e que nem pensassem em tratar mal os colegas...
Quando saímos da aula, o grupo do contra cruzou-se com os colegas de quem tínhamos estado a falar e passaram de nariz no ar, ignorando-os. A Rafaela esbarrou na menina autista, a Laura,  e gritou-lhe, sai da frente anormal. A Laura, primeiro, ficou triste, mas, a seguir,  reagiu e pregou um estalo na cara da Rafaela. Pegaram-se, a Laura tem uma força!... Tu não estás bem a ver, Francisco! Vieram duas funcionárias a correr para separar a briga, mas foi difícil!
Resultado, a Laura não pode ver a Rafaela à frente, diz que ela é mal educada e má. A Rafaela chama-lhe anormal entredentes. Já todos os professores tiveram uma conversa connosco e, mais especificamente,  com o grupo do contra. A Rafaela é a única que continua a destratar os colegas...

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Conheceu-o no Facebook

Francisco, esta gente anda toda louca!
Uma colega minha, a Telma, tem uma irmã de treze anos que conheceu um rapaz no Facebook. Ele é do Porto, isto é, ele disse-lhe que era do Porto. Mas, pode não ser!
Ele, na foto de perfil, aparenta ter 18, 19 anos, tem olhos azuis, diz medir 1.80m, tem cabelo escuro e disse à Vitória, a irmã da minha colega, que estava apaixonado por ela. "Conheceram-se" em Outubro, falavam todos os dias no chat. Depois trocaram os números de telemóvel e passaram a enviar mensagens a toda a hora. 
A Vitória convidou-o para vir ter com ela um dia para se conhecerem, mas ele disse que não podia, pois trabalhava e estudava. A "coisa" ficou por ali, continuaram as conversas no chat, as mensagens e os telefonemas.
A garota era boa aluna, mas depois de conhecer o Pedro, parece ser este o nome do rapaz, as notas começaram a baixar, a baixar... Ela começou a esconder os testes com más notas, a não dar os recados da DT à mãe, começou até a faltar às aulas para estar a enviar mensagens ao Pedro do seu coração.
As notas saíram, ela teve 7 negativas. 
A mãe confiava na miúda, ela tinha sido sempre tão certinha, tão educada, uma jóia de menina! Na reunião de Encarregados de Educação, a mãe ficou a par das faltas, das cartas enviadas pela DT que nunca chegaram, dos recados na caderneta que nunca viu nem leu... A senhora ficou para não viver! 
Os pais ralharam com a filha, puseram-na de castigo, tiraram-lhe o telemóvel, o computador... e incumbiram a Telma de andar em cima dela. Nos intervalos, a Telma não podia tirar os olhos de cima da Vitória e tinha de se certificar que ela entrava mesmo na sala de aula. A Telma não estava a gostar nada desse papel e não queria que a irmã a visse como o seu inimigo público número 1 e pediu-nos, a mim e a mais dois colegas, que a ajudássemos a vigiar a irmã, sem darmos muitos nas vistas, claro. A mãe começou a ir assiduamente à escola falar com a DT e parecia que a garota estava a melhorar. 
Mas, afinal, o portar-se bem, o não ter ficado grandemente chateada com a falta do telemóvel e do computador era só fachada. Ela andava a remoer uma vingançazinha! Continuava a manter contacto com o Pedro através dos telemóveis das amigas; quando a mãe não estava em casa, telefonava-lhe do telefone fixo e acedia ao Facebook através do computador da Telma ou de outro que estivesse disponível. 
Hoje, a Telma contou-me que a irmã fugira para o Porto na passada sexta-feira, depois das aulas da manhã. Esteve na aula com a DT (se ela faltasse, a professora telefonaria logo à mãe) e depois, meteu-se no comboio e, ala que se faz tarde, rumou ao Porto. 
Às seis e meia, ela deveria estar em casa, não chegou, às sete horas também não... A Telma e a mãe desataram a telefonar para todas as colegas da Vitória. O telemóvel dela não estava no lugar onde a mãe o guardou. Telefonaram-lhe. Não atendeu. Telefonaram-lhe um cento de vezes. Nada. A melhor amiga  dela, a Vanessa, disse que talvez soubesse onde  estava a Vitória. Que lhe ia telefonar e que daria notícias, logo que soubesse alguma coisa de concreto.
O pai, quando chegou, foi à polícia participar a fuga da filha e ficou toda a gente a aguardar notícias. 
A Vanessa conseguiu contactar com a Vitória, soube que ela tinha acabado de chegar à estação do Porto. Disse-lhe que não saísse de lá, pois a polícia já andava à procura dela... A polícia daqui comunicou para lá... E eis que tudo correu bem e a Vitória voltou sã e salva para casa.
Agora, Francisco, ouve bem isto:
A Vitória ia ter com um indivíduo que nunca viu mais gordo. A semana passada, na escola houve uma série de conferências sobre a violência, e os perigos da Internet foram abordados. Ela estava mais do que alertada e mete-se num comboio para ir ter com alguém que "conheceu" na Net!
A polícia disse que ela teve muita sorte, pois a esta hora já poderia estar do lado de lá da fronteira numa casa de alterne ou numa situação muito pior... Através do endereço que a Vitória tinha com a morada onde ela e o indivíduo se encontrariam, a polícia apanhou o sujeito... Não tem a idade que disse ter, a foto do Facebook não é dele... Tudo mentira! Trata-se de um pedófilo! Vê lá na alhada que a miúda se poderia ter metido.
Na escola, ela foi contar à DT o que tinha acontecido e  rematou a conversa, dizendo, "agora já todos sabem do que sou capaz de fazer, fugi uma vez, posso fugir mais duas ou três e até desaparecer. Eles que tenham muito cuidado comigo". A DT parece que lhe vai arranjar umas consultas de psicologia. A Telma anda de rastos, nem parece a mesma, só diz:
- O que é que deu à minha irmã. Ela não era nada assim!
Pronto, Francisco, anda ou não anda tudo louco?

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Conferências, roubos, sermões

Olá Francisco!

Estás contente por me veres? Eu também estou feliz por estar aqui contigo.
Como vão as aulas? Bem. Os meus colegas? Ah, esses têm dias: dias em que se portam mais ou menos, dias em que se portam pior, dias em que nem vale a pena falar... Os professores? Uns mais desanimados; outros vão trabalhando com picos de humor, altos e baixos, estás a ver?; outros nada os abala ou parece não abalar, aparecem sempre com o seu mais belo sorriso e fazem das tripas coração para ver se tudo dá certo: exasperam, quando não respondemos acertadamente; rejubilam, quando estamos dentro da matéria e quando "fazemos bonito", como diz a Victória, uma colega brasileira que entrou há pouco tempo para a turma. 
A minha turma continua a ser mais concorrida, ao nível de chegadas e partidas do que o terminal do aeroporto de Lisboa, como dizia a nossa DT o ano passado. Quanto a isso, nada mudou: há sempre alguém que se foi embora, há sempre alguém que acabou de chegar.
Novidades? A DT pregou um valente raspanete aos meninos "armados aos cucos" e às "meninas metidas a bestas", segundo a nova colega. 
O Paulo decidiu roubar os telemóveis a todos os incautos e fazê-los desaparecer, foi um ar que lhes deu. A par dos telemóveis, foi dinheiro, ipads, consolas, óculos de sol... Tudo o que caiu na rede do Paulo era peixe.
Como aconteceu uma coisa destas?
Francisco, a professora já tinha avisado que não levássemos coisas muito valiosas para as aulas, que levássemos telemóveis velhos, só para estarmos contactáveis, os outros valores eram para ficar em casa. O pessoal adora desfilar com o seu iphone novo, o seu ipad do último modelo, a consola portátil mais fixe do mundo e dos arredores, o relógio da marca x... Enfim, chegavam a troçar daqueles que não levavam para a escola os seus objectos de maior valor.
O Paulo, quando era chamado ao quadro, levava todo o "arsenal" consigo: telemóvel e ipad pendurados no pescoço, consola... Algumas coisas, colocava-as na secretária da professora. Depois, acabado o exercício, recolhia tudo e ia para o seu lugar. Ele lá sabia porquê.
Fomos à Biblioteca assistir a uma conferência sobre a violência, deixámos tudo na sala, a professora fechou a porta à chave e levou-a consigo. A palestra duraria 45 minutos, depois regressaríamos à sala, porque a aula era de 90 minutos.
Não sei como, o Paulo saiu da Biblioteca, entrou na sala e limpou tudo o que havia de valor. Ninguém deu pela sua saída nem entrada. Quando regressámos à sala, foi a professora quem abriu a porta... Uma vez, sentados, estivemos a conversar um pouco sobre a conferência e... de repente... começou tudo a queixar-se: uns que lhe faltava dinheiro, outros não tinham os telemóveis... Faltava isto e aquilo. A professora começou a dizer que era impossível faltar alguma coisa, pois tinha sido ela a fechar e a abrir a porta e toda a gente viu e houve até quem confirmasse... Gerou-se uma confusão dos diabos, começaram a desconfiar uns dos outros, a apontar a, b e c. A professora pediu a todos que se sentassem e pregou-nos um sermão daqueles de "caixão à cova". Tudo apontava para o Paulo, houve até quem o visse sair da Biblioteca, tendo regressado pouco depois. Ele desculpou-se, dizendo que fora à casa-de-banho. A professora perguntou-lhe "com ordem de quem é que saíste da palestra?" Ele embatucou. Os olhos da professora pareciam querer sair-lhe das órbitas, enormes, verdíssimos. Estava tudo em silêncio, só se ouvia a voz da professora. Ela estava zangada, zangadíssima, e eu, Francisco, vê tu, a pensar, mesmo a ralhar, mesmo quase a gritar connosco, a professora tem uma voz lindíssima, mais bonita só a da minha mãe...
Agora, Francisco, vais ficar pasmado com o que aconteceu. A professora dirigiu-se ao Paulo e disse-lhe:
- Tens dez minutos para entregar tudo o que levaste daqui, depois, chamo a polícia.
Nós pensámos que ele ia barafustar e dizer que não tinha nada a ver com o desaparecimento de coisa nenhuma. Mas não! Ele levantou-se, saiu da sala. Pensámos, vai-se embora e não volta...
A professora começou a dar aula como se nada tivesse acontecido.
Bateram à porta, a professora olhou para o relógio, sorriu, foi abrir a porta. Era o Paulo. Trazia um saco com todos os haveres dos colegas. Despejou tudo na secretária da professora. Tudo voltou para os seus donos. Faltavam apenas alguns telemóveis. A professora olhou para ele com aquele olhar interrogativo. Ele foi ao caixote do lixo e trouxe os objectos mais humildes. Entregou-os. Chegou a hora da saída. A professora, mais uma vez, falou que aquelas "coisas caras" eram para ficar em casa. Alguns e algumas quiseram argumentar com a professora... Mas esta rematou, dizendo que da próxima vez que tal acontecesse não moveria um dedo, uma palha, para que lhes fossem restituídos os seus pertences. Saímos e a professora fez sinal ao Paulo. O Paulo ficou para trás, nós fomos para a aula de Matemática. O Paulo chegou 15 minutos atrasado e estava com cara de quem tinha estado a chorar...

sábado, 11 de janeiro de 2014

O 2.º período está a começar bem, está!

As aulas já recomeçaram, Francisco, e a minha turma decidiu começar em grande.
Estávamos no intervalo grande. Tínhamos estado na conversa no bar. Falámos sobre as férias, sobre as notas, enfim, estávamos contentes com o recomeço das aulas. Tocou, eu e mais cinco colegas dirigimo-nos para a sala de aula. A professora chegou logo com o seu grande sorriso. Sentámo-nos, escrevemos o sumário, corrigimos o trabalho de casa. Éramos sete: quatro alunas, dois alunos e a professora. Ela olhou para o relógio várias vezes e, por fim,  perguntou onde estavam os outros alunos. Encolhemos os ombros. 
- Bem, vou fazer a chamada, já passa mais de um quarto de hora...
Fez a chamada, marcou falta aos vinte e dois alunos que não estavam e pediu-nos que abríssemos o livro.
De repente, ouviu-se um barulho lá fora, no corredor. Abriram a porta com força e entraram ao molho dentro da sala e aos empurrões. A professora zangou-se e mandou-os sair. Nós dissemos:
- Já têm falta!...
Eles saíram, como entraram, aos berros e aos empurrões. Foram-se. A professora fechou a porta e prosseguiu com a aula. 
Tinham decorrido uns dez ou quinze minutos, quando bateram à porta da sala. A professora foi abrir e deparou-se com uma senhora de estatura média e um homenzarrão enorme e forte, os pais do Ricardo.
- Queremos falar consigo - disse a mãe do meu colega.
- Desculpe, mas agora não posso, estou a dar aula.
- Queremos perguntar-lhe por que razão está a dar aula somente a cinco alunos? - perguntou, com maus modos,  o brutamontes do pai do Ricardo.
- São seis alunos - respondeu calmamente a professora.
- Ou seis. A senhora não deixou os outros alunos entrar porquê? - questionou a mãe do meu colega.
- Porque chegaram muito atrasados... Mas, eu não vou falar com os senhores agora. Estou a dar uma aula. Bom dia!
A professora fechou a porta, deixando-os lá fora a praguejar. Nós ouvíamo-los, apesar de não conseguirmos perceber o que diziam.
A professora ficou nervosa e nós tentámos acalmá-la.
Francisco, o Ricardo, como a professora não o deixou entrar, telefonou aos pais e os pais, em vez de perguntarem ao filho o que se tinha passado, correram para a escola para pedirem satisfações à professora. 
Mas a história não acabou assim! Os pais do Ricardo foram à procura da DT e fizeram queixa da professora, disseram-lhe que a professora, além de não deixar os alunos entrarem na sala de aula, era uma mal-educada e que a DT tinha de a pôr no lugar, de abrir um processo contra ela... Que não queriam ver o filho com falta à disciplina, porque se ele não estava na aula, foi porque a professora não o deixou entrar... E que ficavam à espera de saber o que ia ser feito contra a professora por causa daquela "história", que "aquilo não ia ficar assim, isso é que não ia, que ela não sabia com quem se tinha metido"...
A DT estava passada, branca, eles os dois aos gritos no corredor, a professora a pedir que se acalmassem e a tentar levá-los para a sala de atendimento aos encarregados de educação. As funcionárias não sabiam o que fazer. Os alunos saíam das várias salas e ficavam por ali a assistir àquela confusão...
Contei à minha mãe e ela perguntou-me:
- Como é que os pais vão bater à porta da sala de aula? Os funcionários da portaria deixaram-nos entrar porquê? Os pais só podem entrar para ir à secretaria, falar com o DT, com a Direcção, não podem ir bater à porta das salas de aula, interromper aulas... 
A minha mãe tem razão, mas a verdade é que eles entraram na escola, bateram à porta, importunaram a professora, interromperam a nossa aula e fizeram e disseram o que lhes deu na cabeça.
Enfim, Francisco, o segundo período está a começar bem!

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Onde é que a Sara se enfiou?

Ó Francisco, estou preocupadíssima com a Sara! Outra vez? Sim, outra vez, Francisco. Claro que não tenho idade para ser mãe dela, tu dizes cada uma! Eu conto-te, foi para isso que vim ter contigo, para desabafar, para me dares uma ajuda, sei lá!
A mãe telefonou para cá, para falar com a Sara. Quem atendeu o telefone foi a minha maninha. Já sabes como ela é, estava ensonada, não deve ter sido muito simpática... Respondeu à senhora: Aqui não há Sara nenhuma! A mãe da minha colega deve ter insistido e a Francisca tornou: Ó minha senhora, é engano,  já lhe disse que aqui não vive nem está Sara nenhuma. Bom dia. Bom ano. E desligou a resmungar. O telefone voltou a tocar. Eu ia para pegar no auscultador, mas a minha mãe atendeu do quarto dela. Adormeci momentaneamente. Acordei com a minha mãe a mexer-me no cabelo: Rita, sabes onde está a Sara? Esbugalhei os olhos de espanto! Não sei. Em casa dela. Só então percebi que a Sara, que a minha irmã dizia não estar ali, era a SARA! Rita, a mãe dela está farta de lhe ligar para o telemóvel! E ela não atende. Ela disse que vinha passar o fim de ano contigo, por isso, a mãe telefonou para cá.
- Ó mãe, eu não combinei nada com a Sara. Ela mentiu à mãe! Caramba, ela é completamente doida.
- A mãe pensava que ela estava aqui, a senhora ficou sem conseguir dizer palavra. Rita, telefona à Sara.
Peguei no telemóvel e liguei-lhe. Chamou, chamou, chamou... e nada.
- Ela não atende.
- Onde é que essa miúda se enfiou?
- Não sei, mãe!
- Estará com o namorado?
- No momento, ela não tem namorado nenhum... Que eu saiba! E agora?
- A mãe diz que vai esperar mais um pouco e depois vai à polícia. Bem, vamos dormir mais um bocado, se conseguirmos! Mais tarde, volta a ligar-lhe!
Disse que sim com a cabeça e mergulhei a cabeça na minha almofada fofinha. Não consegui dormir mais. Fartei-me de pensar onde é que ela poderia estar. De repente, lembrei-me do professor de condução, mas afastei logo essa ideia. Não. Ela não é tão parva assim! Ela não se ia meter outra vez com esse tipo! Voltei a telefonar mais um cento de vezes, voltei a não obter resposta. Acabei por adormecer e sonhar com a Sara, aflita, presa não sei onde; com o professor de condução, sorridente, a piscar-lhe o olho e a fazer-lhe boquinhas; com a mãe da Sara, a torcer as mãos, nervosa; com a minha irmã a refilar, a refilar e a refilar; com a minha mãe a pedir que me lembrasse de algo, de alguma pista, que nos pudesse levar à Sara; com o meu pai a dizer: "Essa menina precisa é de uns açoites bem dados!"...
Acordei a transpirar e cansada com a voz da minha mãe a chamar:
- Venham almoçar, já é tardíssimo!
Ao almoço, o tema da conversa foi a Sara. Todos nos perguntávamos, onde estará a destrambelhada da Sara?
A Francisca disse-me para telefonar às minhas colegas, às que se dão também com a Sara... podia ser que elas soubessem alguma coisa.
- Essa tua amiga não é boa da cabeça, Rita! Então, ela diz lá em casa que vem passar o fim de ano contigo e não te diz nada.
- Ela não me disse nada, Francisca, porque já sabia que eu não ia concordar com o esquema. Ela foi para qualquer lado, sabe-se lá com quem e, para a mãe a deixar ir, disse que vinha para nossa casa. 
- Não percebo é o silêncio dela, devia ter atendido o telefone. A mãe ia com certeza ligar-lhe...
- Ó mãe, às tantas tem o telefone no silêncio ou ficou sem bateria!
Francisco, estávamos nesta conversa, quando a campainha soou. O meu pai foi abrir a porta e do outro lado, toda sorridente, estava a Sara. Irrompeu pela casa, foi ter connosco à cozinha e disse quase aos gritos:
- Estou metida num grande sarilho, Rita!
Ficámos todos a olhar para ela, completamente surpreendidos, abismados: a minha irmã deixou cair a colher no prato e levou a mão à boca, para não deixar sair alguma asneira, com certeza; A minha mãe, com uns olhos enormes, olhava-a, olhava-me, olhava o meu pai que ficou encostado à ombreira da porta a abanar a cabeça.
- Onde estiveste? - perguntei.
- Isso não interessa agora, tinha o telefone no silêncio e, quando vi, tinha milhares de chamadas não atendidas: a minha mãe ligou vezes sem conta, tu ligaste e deixaste mensagens... Eu tinha dito à minha mãe que estaria aqui!
- A tua mãe ligou para cá e já sabe que não passaste cá a noite! - disse a Francisca. - Sabes, o melhor é contares onde e com quem estiveste. A tua mãe, entretanto, vai ligar à polícia. Meteste-te numa bela embrulhada.
- Ó Rita, posso falar contigo a sós?
Olhei para a minha mãe e ela assentiu. Fomos para o escritório.
- Sara, telefona à tua mãe e diz-lhe que estás aqui e que depois lhe contas o que aconteceu, não vá ela ligar para a polícia.
Ela ligou à mãe, que estava tudo bem, que estava cá em casa, que depois lhe contava o que sucedera, que não estivesse preocupada... A mãe disse-lhe que a vinha buscar.
Queres saber por onde ela andou? Pois, eu também queria. Não, Francisco, ela não me disse. E mais, disse-me que ia dizer à mãe que ela tinha percebido mal, que não era comigo que vinha passar a noite, era com outra Rita.
Outra Rita? Há outra Rita, vossa amiga? Claro que não, Francisco, não há outra Rita, só eu!
Bem, a mãe da Sara chegou, ela pegou nas coisas e foi-se e eu estou aflita, será que as coisas se vão resolver. Ela disse que me telefonava, mas até agora nada.
Ela é grande, que se cuide?! Só tu me fazias rir, Francisco. Tens razão. Se ela me ligar, ligou; se não ligar, não ligou. Olha, vou ler!



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A Sara quer sair de casa

Olá Francisco!

Estás admirado por me veres, hoje, tão cedo?
Tinha de te contar uma coisa. Fui ver as notas. Sim já te tinha dito que tinham sido boas, mas fui à escola ver as pautas... Há colegas meus com umas notas desgraçadas! Há colegas que não tiveram uma positiva! Enfim!
Este ano, como já te disse, há alguns colegas novos. Novos! Uns com idade para terem juízo!, outros, se continuarem a chumbar, ainda irão para a escola com os filhos pela mão, como diz a nossa directora de turma... É incrível a quantidade de anos que já chumbaram! Eles riem, quando a DT diz que eles devem gostar tanto, mas tanto, da escola, que não querem de lá sair. Só assim se explica levarem três anos e mais para fazerem um.  
Uma aluna demorou um mês a aparecer, foi preciso a DT telefonar, vezes sem conta, para a mãe. Entretanto, sob ameaça, lá apareceu na escola. É a mais velha de todos nós! A professora perguntou-lhe por que faltara tanto e ela respondeu torto: que só ali estava, porque a obrigaram a ir. Bem que pudesse, iria embora.
Estava a contar isto à minha mãe, a dizer-lhe que me fazia confusão, os pais não quererem saber do sucesso ou insucesso dos filhos, das faltas, das más notas, das faltas de educação... E, olha, a minha mãe não ficou nada surpreendida, disse-me que lida com casos desses e ainda piores todos os dias.  Contou-me que tem uma aluna com dezassete anos, da minha idade, no 7.º ano, que está grávida; que tem um aluno também da mesma idade, que já foi seu aluno há cinco anos no sétimo ano e continua no mesmo ano (Cá para mim, Francisco, ele já deve saber a matéria de cor e salteado!). Os pais disseram à minha mãe que não lhe compram o material, porque já sabem que ele vai chumbar mais uma vez. Ele está à espera de fazer dezoito anos para deixar a escola. Diz que não gosta de andar na escola! Caramba, não gosta de andar na escola, mas tem de lá andar!... Não seria melhor aproveitar e estudar, passar de ano, fazer alguma coisa? Não percebo em que pensam estes miúdos?! E os pais?! Que graça tem andar no sétimo ano 5 ou 6 anos só para passar o tempo?
A minha mãe diz que já falou com os pais, com os alunos, com os pais e os alunos ao mesmo tempo e não conseguiu meter juízo nenhum na cabeça daquela gente.
Mas, isto foi um parênteses! Encontrei a Sara. A Sara? Sim. A do acto irreflectido? Sim, Francisco. Ela disse-me que quer sair de casa, que os pais não a compreendem, que quer fazer a vida dela, que não quer dar cavaco a ninguém..., que está farta de ser controlada, que já tem 22 anos... Perguntei-lhe para onde ia morar e como ia fazer para sobreviver. Que ia arranjar um emprego. E as aulas? Que está farta das aulas e que às tantas não consegue fazer outra vez a Matemática. Claro, se continuares a faltar, se não estudares, se não fizeres exercícios, vais chumbar, Sara!, disse-lhe. Nem me ouviu! Vou a uma entrevista de emprego, se conseguir ficar... saio de casa, alugo um quarto, afirmou. Tentei fazer-lhe ver que devia fazer a disciplina que tem em atraso, mas creio que ela nem ouviu os meus argumentos. Pronto! Estou preocupada com a Sara, porque ela só se mete em encrencas. É filha única, os pais são óptimas pessoas, não mereciam uma filha tão destrambelhada! Quando souberem que ela quer sair de casa, vai ser um Deus nos acuda! Coitados! Pedi à minha mãe para falar com ela. A minha mãe telefonou-lhe, ouviu-a, ouviu-a, ouviu-a... No fim, a minha mãe perguntou-lhe se podia falar, ela deve ter-se calado, finalmente. A um gesto da minha mãe, saí do escritório. Uma hora depois, a minha mãe chamou-me e passou-me o telefone. A Sara disse-me, tens uma mãe espectacular, por agora não vou sair de casa. Fazes bem, Sara, disse-lhe. Bom Ano Novo! Vemo-nos na escola.
Sabes, Francisco, a Sara vai acabar por sair de casa. Ela acha que por ter 22 anos já é senhora do seu nariz, mas, como a minha mãe diz, ela só será "livre, emancipada, maior...", quando tiver com que se sustentar... E, por isso, é  que ela devia estudar e não andar a meter-se em aventuras, encrencas...


domingo, 22 de dezembro de 2013

Eu e as minhas boas ideias

Francisco, finalmente as férias chegaram. Vou ter mais tempo para conversar contigo. O Natal é um tempo mágico, mas muito apertado, há muito que fazer! Vem a família toda e é preciso decorar a casa, fazer doces, doces e doces, o bacalhau, as couves e as batatas, o peru... É uma canseira, mas uma canseira boa!
Novidades? Novidades, deixa-me ver... A minha mãe recebeu mais bilhetes? És mesmo cusco! Bem, recebeu mais dois ou três, no último vinha um número de telefone. Sim, um número de telefone. O autor queria tomar um café e conversar com a minha mãe. A minha mãe? Não ligou e rasgou o bilhete. Mas, eu tive uma ideia! Eu e as minhas ideias? Diz antes: eu!, e as minhas boas ideias! 
A minha mãe não queria, que não, que mais isto e aquilo... Eu sou teimosa e acabei por convencê-la. Disse-lhe que respondesse ao bilhete e o deixasse no carro... Quando o indivíduo lá fosse pôr um dos seus recadinhos, veria o bilhete. Se acho que ele o leu? Claro que leu! Se tenho a certeza?  Eu vi o fulano. Vou contar-te.
Eu e a minha mãe escrevemos o bilhete: "Obrigada pelos vários elogios, o senhor é muito gentil. Não é necessário escrever mais bilhetes a dizer que sou uma senhora muito bonita e elegante. Quanto ao cafezinho e à conversa, fique a saber que não falo com pessoas desconhecidas. Tenha uma boa tarde e, por favor, não deixe mais bilhetes, pois não possuo caixote do lixo no carro." O que nos rimos! Mas deu resultado, ele não voltou a deixar papelinhos. 
Eu vi-o a ler o bilhete, sim. Fiquei no café em frente ao estacionamento, enquanto a minha mãe foi ao ginásio. O carro estava virado para a porta do café. Estava a beber um sumo e a comer um pastel de nata e a vigiar o carro. E passado um bocado, lá surgiu o rapaz. Sim, rapaz. Deve andar, perto dos trinta. Um rapazola! Chegou ao pé do carro, olhou para um lado, para o outro, para a frente, para trás e tirou rapidamente o bilhete do limpa pára-brisas. Leu, fez uma careta e voltou a pôr o bilhete no lugar de onde o tirou. O bilhete que tinha na mão, o dele, rasgou-o e, vê lá tu, atirou os papelinhos para o chão. Deu meia volta e saiu apressado dali. Depois deste episódio, pararam os bilhetinhos. 
Quando a minha mãe voltou do ginásio, passou pelo carro para deixar o saco, tirou o nosso bilhete, amassou-o e colocou-o no bolso e foi ter comigo ao café. Sentou-se, sorriu-me e disse:
- Afinal, não veio.
- Veio, veio. Leu o bilhete e voltou a pô-lo no lugar.
- Ah!
- O bilhete dele rasgou-o e atirou os papéis para o chão, o porcalhão.
Rimo-nos. A minha mãe pagou e saímos. Ainda apanhei alguns pedaços do bilhete que dizia: Fiquei à espera do seu telefonema...
E pronto! Acabou a história. Acredito que não volte mais a incomodar.
Vou dormir. Amanhã falamos. As notas? As notas foram boas e passei no exame de código. Qualquer dia, vamos dar um passeio. Um perigo? Eu? Olha, obrigadinha pela confiança! Vá, vai dormir. Tu tens é sono.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O bilhete

Olá Francisco!

Sei... sei muito bem que tenho falado pouco contigo, mas já sabes como é...
Olha, tenho ido às aulas e tenho ido ter com a minha mãe ao ginásio, espero por ela e, depois, vamos lanchar e tem sido óptimo. Temo-nos rido bastante com as reacções das pessoas... É engraçado, estarmos numa esplanada, descansadinhas, a saborear o nosso lanchinho e a observar o que se passa à nossa volta... E, por vezes, mesmo sem falarmos, apenas uma troca de olhares, um sorriso... e acabamos a rir à gargalhada. As pessoas são tudo menos discretas!

E os homens que frequentam o ginásio, tu não estás bem a ver... Armários. Alguns são autênticos armários andantes a pavonearem-se de um lado para o outro. A minha mãe, lá, está, na dela, a fazer os exercícios, a olhar para a televisão e, de vez em quando, a procurar o meu olhar... E sorrimos... Ambas sabemos de quê. Dos pavões rectangulares, claro!, ou seja dos armários. Outros são tão gordos e disformes que mesmo que frequentem o ginásio dia e noite, jamais chegarão ao estatuto de armário andante. E os olhares que deitam às mulheres! Eu divirto-me a sério a observar aqueles rituais. Olha, há vários olhares: olhares desaprovadores para as meninas e senhoras mais gordinhas e balofas; olhares de engatatões para as miúdas e senhoras com tudo no lugar; olhares que ficam presos nos traseiros ou nos seios, conforme o gosto; olhares insistentes à procura de outros olhares que olham, mas não vêem. O olhar da minha mãe é este último. 
Pergunto-lhe, à saída:
- Viste aquele fulano de cabelo rapado que não tirava os olhos de ti?
- Quem? Qual?
- Moreno, alto, careca...
- Humm, não vi ninguém com essa descrição.
- Pois, mas olha que ele viu-te bem e de todos os ângulos.
- E aquele que insistiu para te levar os pesos?
- Que tem? Quis ser amável e despachar-me da máquina...
- Ó mãe, o tipo andou o tempo todo atrás de ti, a fazer os exercícios que tu fazias... Achas isso normal?
- Sei lá! Eu vou ao ginásio fazer exercício, não vou ver armários nem pavões, como tu lhes chamas.

Hoje, ao chegarmos ao carro, havia um bilhete no limpa pára-brisas. Ia dando um ataque à minha mãe. Pensou que fosse uma multa. Começou logo a dizer mal à vida dela e à procura do sinal de "Proibido estacionar". Eu, calmamente, até porque não seria eu a pagar a multa, dei a volta ao carro, tirei o bilhete, acenei e disse não é uma multa. A minha mãe sorriu:
- É mais um daqueles "curandeiros" a apregoar os seus serviços?
- Não! "A senhora é muito bonita!".
- O quê?
- O bilhete diz: "A senhora é muito bonita!".
- Mostra lá.
Olhou o bilhete, olhou para mim e desatámos a rir.
- Vamos para casa.
- Ó mãe, não tens curiosidade? Não gostarias de saber quem escreveu este bilhete?
- Não! Algum idiota que precisa de óculos ou que se enganou no carro.
- Tu és bonita mãe! pode ter-se enganado no carro, mas se te viu e se escreveu o bilhete para ti, não precisa de óculos nem é cego.
- Rita, tu e a tua imaginação!
- Olha, mãe, sabes que mais? Se o autor do bilhete não se enganou no carro nem na pessoa, ainda vão aparecer muitos bilhetes... 

Vou jantar, Francisco!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Um acto irreflectido

Olá Francisco!
Os exames da minha mãe estavam óptimos. Tudo bem. O médico que já a conhece há 10 anos, brincou com ela como sempre! Ele tem um grande carinho por ela! Pronto, está tudo como deve estar, está linda por dentro e por fora, viva, divirta-se, o que aconteceu já lá vai, para quê essa tremedeira toda, essa cara de medo, essa desconfiança... Aí, o sorriso da minha mãe abriu-se, tudo na cara dela sorriu, principalmente os olhos. E pronto! 
Olha Francisco, eu tinha-te dito que depois te contava aqueles momentos horríveis por que a minha mãe passou e toda a família, mas não vai ser hoje. Agora, tenho de te contar uma coisa grave, mesmo grave e, como não posso contar a mais ninguém... Mas é que se não falo, expludo, vou confidenciar-te o que se está a passar com a minha amiga Sara.

A Sara anda a tirar a carta comigo. Eu já conheço a Sara há três anos, conheci-a no 10.º ano. Tornámo-nos amigas, mas não muito amigas!, amigas, sabes como é?, sem grandes intimidades. Ela tem 22 anos, temos cinco anos de diferença! Ela achava-me um bocado beta, uma menina da mamã, um bebé ainda. Este ano é que nos aproximámos mais e agora estamos ambas a tirar a carta e temos falado bastante, temo-nos encontrado, temos ido ao cinema, juntamo-nos com amigos, jantamos todos algumas vezes, vimos aqui para casa, para a piscina... Enfim, acho-a divertida, muito extrovertida e desinibida, mas um bocadinho "para a frente de mais!".
Ontem, ela telefonou-me e disse que tinha algo muito grave para me contar e que precisava de falar comigo urgentemente, mas não pelo telefone. Marcámos encontro no café. 
E eis o que ela me contou:

- Rita, sabes aquele professor da escola de condução, aquele bonitão de olhos verdes, alto, que se veste muito bem?
- Aquele que explica muito bem?
- Rita, o homem é lindo e tu só tens para dizer que ele explica muito bem. Mas, sim, é esse!
- Sara, o homem lindo, como tu dizes, tem mais de cinquenta anos, tem idade para ser teu pai. Tudo bem, ele deve ter sido um borracho quando era da nossa idade, mas agora, é um bocadito velho, não achas? 
- Por amor de Deus, Rita, velho? Já viste que os rapazes da minha idade, nem falo dos da tua!, são uns pãezinhos sem sal, não têm graça nenhuma, não sabem falar de coisa nenhuma...
- Sara, a coisa grave que me querias contar... é que... (e eu olhava muito séria para ela, para os olhos dela)... Por favor, não me vais dizer que estás apaixonada pelo professor?
- Não, não estou. É mais grave do que isso!
- Mau!
- Fui para a cama com ele.
Franzi a testa. Parecia que algo me tinha caído em cima. Ela acabara de me dizer da maneira mais natural que tinha ido para a cama com o professor. Levantei a sobrancelha esquerda de tal forma que me pareceu que não ia conseguir colocá-la de novo no seu devido lugar.
- Sara, tu só podes estar a brincar! O homem, às tantas, até é casado...
- É divorciado.
- Seja como for, como é que foste capaz de ir com um homem da idade do teu pai para a cama? Ainda por cima, disseste que não estás apaixonada por ele! Caramba, onde andas com a cabeça!
- Olha, eu não sei como aconteceu, ele diz que eu o andava a seduzir, a provocar, que nas aulas o olhava descaradamente e que me punha a lamber o lábio superior de uma maneira muito sensual e convidativa... Mais, que não conseguia tirar-me da cabeça e que até sonhava comigo acordado e a dormir, que em sonhos já tinha feito tudo o que uma mulher faz com um homem...
Eu tinha os olhos completamente esbugalhados, estava atónita, de boca aberta, a mente completamente bloqueada... A Sara é um bocado destrambelhada, tem a mania que é boa, que é bonita, que é sedutora, que os rapazes gostam todos dela (e os que não gostam é porque são gays ou têm um problema qualquer ou ainda andam de volta das saias da mãe e com os cueiros colados ao rabo...). Agora, ir para a cama com um tipo que mal conhece, que não ama e com mais do dobro da idade dela, era dose. Assaltou-me, de repente, um mau pressentimento.
- Sara, usaram preservativo?
Ela riu-se e disse, com um ar muito divertido, descaradamente:
- Sim, mamã, usámos não um, mas dois preservativos.
Voltei a fazer subir as minhas sobrancelhas, com um grande ponto de interrogação a saltar-me dos olhos cada vez maiores.
- Fizemos aquilo duas vezes.
- Aquilo!?
- Rita, não fiz amor duas vezes com ele! Hello!, eu não amo o gajo. Demos duas quecas.
Os olhos quase me saltaram das órbitas de espanto.
- Rita, fazemos amor com quem amamos, com os outros f------, percebes?
- Sara, por amor de Deus, tu andas a tomar coisas? Eu nunca te ouvi dizer palavrões e agora dizes-me que f------ com um tipo duas vezes... Tu não estás bem?
- E não estou! Não sei como me meti nisto! Ele, numa aula da tarde, pegou no meu livro para explicar uma coisa qualquer e depois andou às voltas pela sala com o livro na mão... Entretanto, terminou a aula, saímos todos e eu nunca mais me lembrei do livro. Fomos ao café comer um bolo. Lembras-te?
- Ah, saíste do café a correr a dizer que ias buscar o livro, que te tinhas esquecido... E não voltaste.
- Pois! Subi as escadas, estavam às escuras, pensei que talvez já lá não estivesse ninguém... espreitei e vi  luz na sala. Galguei o resto dos degraus, mas fui travada no último degrau. Ele agarrou-me e beijou-me. Ele estava à minha espera. Ficou na escola, porque sabia que eu regressaria para pegar o meu livro. Primeiro assustei-me, quando me agarrou, mas quando vi que era ele... E foi cá um beijo. empurrou-me contra a parede, agarrou-me as mãos, levantou-mas para cima, fiquei esticada, as mãos dele nas minhas e encurralada pelo corpo dele. Encostou-se tanto a mim que parecia querer entrar dentro de mim. Aquilo crescia contra mim. Por fim, desenvencilhei-me daquele aperto, desci as escadas a correr.
- Não trouxeste o livro nem nada. Ele deu-to na aula seguinte com um, Aqui está o livro que me emprestou na última aula! Na altura fiquei espantada! Afinal, não tinhas ido buscar o livro!?
- Depois, começaram as aulas práticas e o meu instrutor é ele, como sabes.
- Mas tu ficaste toda contente por ser ele a dar-te as aulas de condução!
- E fiquei.
- Olha, depois do beijo, deverias ter pedido outro professor.
- Pois devia, mas estava entusiasmada com o facto de despertar algo num homem bem mais velho do que eu, era quase um desafio... E nunca pensei ir mais longe...
- Mas foste, Sara!
- Na primeira aula, ele teimava em pôr as mãos dele sobre as minhas, no volante, na manete das mudanças... Eu ria-me, pensava que ele me estava a orientar, que me achava um bocadinho aselha... As pernas tremiam-me um pouco, era a primeira vez que pegava num carro e ele punha-me a mão na perna e agarrava-ma, ria e dizia: Calma, eu estou aqui! Isto acontece a todos na primeira aula. Depois terminou a aula e perguntou-me se não lhe dava um beijo.
- E tu não deste, claro!
- Dei, ia dar-lhe na cara, um beijo de despedida e ele virou a cara e beijou-me na boca.
- Tu és doida! Incentivaste o tipo.
- Depois começou a telefonar-me para o telemóvel.
- Tu deste-lhe o número... Ó Sara, mas o que é que te deu?
- Não lhe dei número nenhum, ele é o dono da escola de condução, tem lá os dados das pessoas: nome, morada, telefone... 
A minha boca formou o O maior do mundo, os meus olhos ficaram maiores do que a minha boca aberta.
- Rita, ele telefonou-me a dizer que me ia buscar a casa, que queria ver-me. Eu ripostei. Disse que não queria que me telefonasse e que não lhe ia dar a minha morada... Mas, ele riu e disse:  Querida, eu tenho a tua morada, o teu telefone... Desliguei e não voltei a atender o telefone.
- E depois?
- Na aula seguinte, ele mostrou-se zangado, fartou-se de ralhar comigo cada vez que eu não tinha mãos suficientes para conduzir o carro, deixei o carro ir abaixo uma série de vezes, ia batendo num carro que estava estacionado, ia atropelando uma pessoa na passadeira. Ele travou a fundo e eu assustei-me. Ele mandou-me encostar para trocarmos de lugar, que eu estava muito nervosa, que precisava de descontrair... E de repente, vi-me em casa dele, na cama dele, a f---- com ele uma vez e, depois, outra.
- Sara, não fales assim, não digas palavrões.
- E foi bom, Rita, foi mesmo bom.
- Caramba, Sara, e agora?
- Agora, ele quer mais, e vejo-o, por vezes, estacionado ao pé da minha casa. E tenho medo que os meus pais descubram. E quero e não quero voltar a fazer aquilo com ele.
- Sara, não podes continuar com isso. Pára já, não deixes avançar mais. Pede outro professor lá na escola. Não te encontres mais com ele. Se ele te continuar a perseguir, vai à polícia. Ele pode fazer-te mal, não sei, mas pode. Ó meu Deus, Sara, não te encontres mais com ele. Se for preciso conta à tua mãe, pede ajuda a alguém. Sei lá!

Pronto, Francisco, aqui tens o que a destrambelhada da Sara fez. Achas que foi apenas um acto irreflectido? Tu também estás doidinho! É que sabe-se lá o que é que este acto irreflectido, como dizes, pode trazer!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Mãe, tu vais morrer?



Querido Francisco, não tenho tido tempo nenhum para ti! Também, diga-se de passagem, não tenho tido grandes novidades. Nem grandes nem pequenas, aliás!
A minha mãe tem andado sorumbática, tristonha,  fica sempre assim quando vai fazer aqueles exames médicos... 
Há mais de dez anos que assim é!
Era pequena e, numa dada altura, não percebia muito bem, por que razão ela passava de estados de alegria a estados de tristeza tão profundos, assim, de repente, do nada. Era estranho, ela era sempre tão alegre, raramente se zangava e, quando isso acontecia, logo a seguir era uma risada pegada, abraços e beijos...
Lembro-me de a ver a chorar às escondidas! Quando me via ou dava por mim, limpava as lágrimas às costas das mãos e dava desculpas: estive a descascar cebolas, entrou-me um cisco para o olho, as lentes já não devem estar muito boas... À minha frente tentava sempre mostrar-se alegre. Agora sei que aquilo era tudo fita, tudo para inglês ver. Mesmo quando me parecia feliz, parecia que havia umas nuvens a pairar-lhe sobre os olhos verdes. Engraçado! Naquela altura, a minha mãe tinha uns olhos tão verdes, mas tão verdes que se olhasse para os campos secos decerto que os tornaria verdejantes só de os olhar... Agora sei, que aquele verde era de tanto chorar! E andou assim uns dias, a chorar, a esconder as lágrimas, triste... Um dia, perguntei-lhe:
- Mãe, tu vais morrer?
Ela olhou-me nos olhos, pegou-me ao colo, roçou a cara húmida na minha e disse-me com o sorriso mais bonito e luminoso que eu já vi:
- Não, não vou, é que não vou mesmo!
E foi como se tivesse ressurgido das cinzas! Levou-me ao colo para o quarto, pediu-me que lhe escolhesse uma roupa bonita, que íamos ao cabeleireiro, depois comer um gelado ou um bolo e marcar uns exames. Isso de marcar uns exames não percebi o que era, mas não devia ser nada de muito importante! 
Ela vestiu o vestido que eu escolhi, calçou os sapatos que eu escolhi, usou a mala que eu escolhi. Pintou os lábios com o batom que eu escolhi e pintou os olhos da cor que eu escolhi. Não sei se tudo aquilo combinava, mas eu estava tão feliz por ajudar a minha mãe a pôr-se mais linda ainda!
E lá fomos!
Depois, lembro-me de irmos à praia todos os dias de manhã: eu, a minha irmã e a minha mãe. Apanhávamos sol, íamos ao banho, passeávamos à beira-mar, apanhávamos conchinhas e pedrinhas, almoçávamos e, depois, voltávamos para casa. À tarde, a minha mãe ia fazer aqueles exames. 
Foi um Verão espectacular!
No fim de Agosto, a minha mãe foi a Lisboa a um hospital. Fomos todos: os meus avós (pais da minha mãe), o meu pai, eu e a minha irmã. Eu brincava com a minha irmã, ao fundo da sala vazia, ao pé dos meus avós. Não percebia por que razão estavam todos com aquele ar apreensivo. A minha mãe estava sentada a uma mesa e o meu pai, em frente, do outro lado, tinham os cotovelos em cima da mesa e brincavam com as mãos um do outro e olhavam-se. A minha mãe ria, o meu pai ensaiava um sorriso que, por mais que tentasse, não lhe estava a sair nada bem! 
Veio uma enfermeira com uma bata azul, espreitou e voltou para trás. A minha mãe sobressaltou-se. Pouco depois, voltou a surgir a mesma enfermeira que desapareceu de novo, sem nada dizer. Entretanto, regressou acompanhada de um médico de bata branca que se dirigiu logo à minha mãe. A enfermeira pediu desculpa ao médico, porque pensava que a doente era uma pessoa mais velha... 
As minhas orelhas pareciam antenas, apercebi-me que iam levar a minha mãe e corri para ela, agarrei-me com toda a força às suas pernas a gritar não sei o quê. A minha mãe baixou-se, pegou-me ao colo, beijou-me os olhos de onde me saltavam as lágrimas e disse-me a sorrir:
- Não chores, a mãe vai só tirar uma borbulha. Amanhã já vou para casa.
Agarrei-me ao seu pescoço como se fosse uma âncora, comecei a pensar nos dias em que ela chorava e chorava e chorava e tive medo, tive medo de não voltar a vê-la.
No outro dia, ela veio para casa e eu queria ver onde era o dói-dói da borbulha. Era na mama. Ela tinha um penso grande no seio esquerdo. 
Vou jantar, Francisco, depois conto-te o resto.

domingo, 26 de maio de 2013

A prof. de Ciências e o Acordo

Francisco, o final do ano aproxima-se a passos largos e há tanto para fazer, principalmente estudar, estudar, estudar, estudar... Aqui em casa anda tudo em papos de aranha, a minha mãe com resmas de testes para corrigir e trabalhos e composições e exposições a decorrer com os trabalhos dos alunos; o senhor raiz quadrada anda sempre de mau humor e a praguejar por causa dos maus resultados a Matemática, da falta de trabalho e de empenho dos alunos. Os resultados são péssimos, nas três turmas de nono que tem, o balanço foi terrível, três positivas em cada turma. O teste intermédio foi para esquecer, só houve duas positivas numa turma... ; a Francisca anda de volta da tese e não fala noutra coisa. Está cheia de medo! Ainda por cima entrou em conflito com a orientadora ou lá o que é, por causa do Acordo Ortográfico. Ela enviou o trabalho e a professora devolveu-lho todo rasurado, todo pintalgado de vermelho. A minha irmã perguntou que raio era aquilo e a orientadora respondeu-lhe que o trabalho estava cheio de erros ortográficos. 
- Erros ortográficos? Deve estar a brincar comigo, nunca ninguém me apontou um único erro, eu não dou erros ortográficos nenhuns...
- Agora dás, tens de escrever segundo o acordo.
- Está a pedir-me para escrever com erros? Qual acordo, qual carapuça! Eu só escrevo em português decente.
- Se teimares, serás penalizada.
E a Francisca telefonou logo à minha mãe e chorava e dizia que aquela anormal lhe tinha vermelhejado o trabalho todo, que queria que ela escrevesse em acordês, que era uma ignorante, uma burra com duas pernas e saias... A minha mãe ouviu, ouviu, ouviu e depois disse-lhe que estivesse descansada que lhe iria arranjar a lei que dizia que o AO é inconstitucional e que não está nem pode estar em vigor... E que se mesmo assim a penalizassem na nota que se ia para tribunal... A minha maninha ficou mais calma e disse que ia falar com a orientadora...
Olha, Francisco, eu até tenho sorte com esta coisa do AO, a professora de Português nem quer ouvir falar nisso, está sempre a dar exemplos de palavras acordadas que até dão vontade de rir, o que nos divertimos com os exemplos que ela arranja para vermos a aberração que é o famigerado acordo. Só a professora de Ciências é que é toda pró acordo, mas não conseguiu até hoje explicar-nos porquê, que é para uniformizar a língua portuguesa, que os portugueses e os brasileiros passam a escrever tudo do mesmo modo ou quase tudo. Desatámos a rir com este argumento tão disparatado e apresentámos logo mais de cem exemplos onde não há qualquer maneira de uniformizar a língua... A professora não conseguiu contra-argumentar e acabou por dizer que é lei e que as leis são para cumprir... E o riso voltou a estalar. A conversa acabou com vamos mas é dar matéria, porque vocês estão todos "feitos" com a professora de Português. O André perguntou se podia escrever uma frase no quadro em acordês para a professora lha explicar, porque ele, como era contra o acordo, não conseguia decifrar aquilo. Ela acedeu e no quadro apareceu: "Não me pelo pelo pelo de quem para para desistir". A professora ficou a olhar com uma cara... e foi uma enxurrada de gargalhadas. O Filipe levantou-se e escreveu: "Preciso de um medicamento para o nervo ótico."  Ah, essa é fácil, sorriu a professora: é um medicamento para os olhos. Ai isso é que não é, disse o Filipe, é para os ouvidos. O Gonçalo decidiu também atazanar a professora e saltou para o quadro, decifre esta, professora: "Não se fie em corretores, podem dar indicações erradas!" Mais uma vez a prof. ficou à toa.
- Professora, essa frase é ambígua, não sabemos se se fala de corretores da bolsa, se de correctores ortográficos! - disse-lhe.
- E este título de uma notícia: "Ninguém para este motorista!" - atirou a Linda.
A professora foi salva pela campainha.
Pois, Francisco, ela ficou com os neurónios todos queimadinhos. Acho que ela estava a rezar para a aula acabar logo, pois não decifrou nenhum dos enigmas apresentados. Quando contámos à professora de português, ela disse com um ar muito confrangedor, que mauzinhos! A minha mãe, quando lhe narrei o sucedido, partiu-se a rir. A Francisca aprovou e disse que cambada de carneiros, aceitam tudo. Será que já se deram ao trabalho de ler a aberração do Aborto Ortográfico? Não, claro que não! Que gentinha mais idiota!
Bem, vou dormir e sonhar com frases malucas escritas em acodês e mixordês!
O que é mixordês? É um tipo de salada-russa: mistura-se o AO de 45 com o AO de 90.



sábado, 27 de abril de 2013

A nova Linda

A minha irmã foi com a Linda ao cabeleireiro. O Rodrigo olhou, mirou, mexeu, apalpou-lhe o cabelo  e exclamou:
- Este cabelo tem sofrido horrores, bem-vinda, vou ver que milagre se pode fazer aqui. Pior do que está é completamente impossível!
A nossa nova amiga olhou-o desconfiada e muito pouco convicta...

A Francisca chegou a casa sozinha, perguntei-lhe pela Linda. Encolheu os ombros, que tinha desistido, que fez uma cena, porque a queriam mudar, que, que, que... A minha maninha estava desolada. Subiu e enfiou-se no quarto. Cada vez que não consegue algo, retira-se, encafua-se no seu mundo...
Não consigo acreditar! 
Francisco, a tonta da Linda, que ninguém reconheceu no bar, voltou atrás? Não percebo, todos a acharam engraçada, ela divertiu-se, brincou, foi uma Bruna alegre e bem-disposta!... Parecia que estava tudo no bom caminho. À noite, contou-nos que o pesadelo começara desde que entrara para a escola, que a gozavam por causa do nome, ao ponto de ela se transformar daquela maneira. Mas, agora, com a ajuda da minha irmã,  tinha-se apercebido que as pessoas não são feias, têm é de aprender a valorizar os seus pontos fortes... 
E agora desistiu!
E eu que estava tão contente! 
Na próxima aula vamos apresentar o trabalho de português, pensei que apresentaríamos também a nova Linda... 
A única coisa positiva nisto tudo é que consegui saber porque se esconde a Linda, assim, debaixo de trapos e maquilhagem horrendos.
A minha mãe disse-nos que se calhar tínhamos ido muito depressa ao pote, que se a mudança tivesse sido mais gradual e não tão radical... É que... devagar se vai ao longe!
Fui telefonar ao grupo para combinarmos melhor a apresentação do trabalho, marcámos um encontro para a hora de almoço, na biblioteca, antes da aula de português para ultimarmos tudo. A Linda disse que não podia ir que, na aula, faria o que tivéssemos decidido. Fiquei chateada, queria que tudo corresse bem, sem falhas nem enganos e agora a menina Linda não estava disponível... Que irresponsável!
No dia seguinte.
Chegámos à aula, a Linda não havia meio de chegar. Chegou a nossa vez, ligámos o computador, o projector... Estava a fazer a introdução ao trabalho, quando bateram à porta. A professora mandou entrar, como ninguém entrou, encolheu os ombros e foi abrir a porta. Olhámos quase todos para a porta aberta. Uma rapariga ruiva e sardenta espreitou. A professora olhou-a interrogativamente.
- Posso entrar, professora, estou atrasada, mas vejo que os meus colegas estão a principiar a apresentação do trabalho...
- Linda! - gritámos em uníssono.
Ela entrou, a professora ficou ao fundo da sala a sorrir e piscou-me o olho. Rodeámos a nossa nova colega.
Francisco, todos ficámos encantados, e afinal a Francisca conseguiu mesmo fazer da Linda feia uma Linda bonita.
Estava de calças de ganga, vestida como qualquer uma de nós, usava um pouco de maquilhagem... Parecia muito mais nova, quer dizer, parecia ter a idade que tem!
Quando cheguei a casa, a Francisca queria que lhe contasse tudo.
- Nem penses, ontem enganaste-me.
- Ora, Rita, diz lá que não foi por uma boa causa? Diz lá que não gostaram da surpresa?
Francisco, sabes por que razão a Linda não foi à reunião e chegou atrasada à aula? Pois, estava com a minha irmã. A minha mana é que lhe escolheu a roupa e que a maquilhou. E não me disse nada, a malvada!
E o trabalho? Ah, a apresentação do trabalho correu bem, Francisco, a professora adorou, os meus colegas disseram que foi o melhor trabalho, ficámos duplamente contentes... Ah, e a professora felicitou-nos  pelos dois trabalhos... Sim, Francisco, a transformação da Linda e o trabalho de grupo.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

A mudança e a nova amiga, a Bruna

Sábado de manhã. O meu pai, a minha irmã e eu a braços com a cobertura da piscina. Aquilo pesa horrores, mais do que o meu dinheiro e o da família inteira. A minha mãe observava lá de cima da varanda com um sorriso. O meu pai perdia a paciência com a nossa falta de jeito, dizia ele, mas era mais falta de força, dizia eu!
Por fim, lá conseguimos tirar o largo e pesado oceano azul de cima da água azul turquesa que brilhava e rebrilhava e reflectia o céu... Lavámos a cobertura, colocámo-la a secar na rampa que dá para a garagem e toca a aspirar a piscina e a pôr tudo em ordem para receber o pessoal, depois de almoço: cadeiras, espreguiçadeiras, mesas, almofadas, mantas,  o grande chapéu de sol... tudo cor-de-laranja a dar um ar colorido à relva verde e viçosa acabadinha de cortar. Ah,  e as tochas...
A minha mãe preparou umas pizzas e almoçámos, ali à beira da piscina, estirados ao sol.
Logo depois, chegou a Linda. Se não fossem os malditos piercings e a horrorosa roupa fúnebre, nem a tínhamos reconhecido: trazia uns calções pretos, uma túnica preta adornada com tachas e as botas horrendas que nunca tira. 
Será que dorme com elas? Mas que pergunta mais idiota, Francisco.
A cara lavadíssima, branca, o cabelo atado com uma fita negra e as unhas pontiagudas sem verniz.
Logo a seguir, chegaram duas amigas da Francisca e a Margarida.
A minha maninha anunciou que à noite íamos a um bar, que a roupa não era problema, que entre a roupa dela, a minha e a da minha mãe de certeza todas ficaríamos bem servidas.
A tarde foi agradável, rimos, contámos anedotas, tomámos banho, jogámos, ouvimos música... A minha irmã fingiu o tempo todo que lia um livro e observava a Linda. É claro que a doce Francisca estava a preparar alguma, ela ia lá para a noite com uma Linda feia! Não sei como é que vai convencer a minha colega a vestir outra coisa que não sejam os seus trapos pretos de luto cerrado!
A tarde começou a cair e um vento frio a levantar-se. Arrumámos tudo e rumámos a casa, tínhamos de tomar banho, arranjarmo-nos e jantar...
A Francisca convenceu a Linda a tomar banho e a arranjar-se nos seus aposentos. 
- Tu vens comigo. A Margarida vai com a Rita, a Joana e a Marta preparam-se no quarto de visitas... - decidiu ela.
Eu comentava com a Margarida a decisão da minha irmã.
- Aposto que não vamos reconhecer a Linda que vai sair do quarto da minha maninha! 
A Margarida dizia que não acreditava, que ainda se iam zangar...
A minha mãe preparava o jantar com o meu pai lá em baixo e riam não sei de quê. Eu conseguia ouvir o riso e a voz da minha mãe.
- Rita, a tua mãe tem uma voz tão bonita, as aulas dela devem ser deliciosas!
- Sim. Margarida, sabem a morangos com chocolate!
- Que tonta, Rita, estou a falar a sério!
A minha irmã bateu à porta:
- Rita, empresta-me aquele vestido branco com o peitilho de renda e os teus sapatos cor de pérola... Vai-me buscar o casaco branco da mãe, aquele que eu gosto.
Olhei-a estupefacta, vestido branco, sapatos pérola, casaco branco!...
- Ah, empresta-me aí os teus brincos: as pérolas pequeninas e as outras maiorzinhas...
Entreguei-lhe tudo com um monte de perguntas a bailar-me na ponta da língua, mas ela virou costas e desapareceu.
A Margarida olhava para mim e sorria, enquanto pintava os olhos. Estava gira, de saia preta com lantejoulas e blusa rosa com uns desenhos bordados com lantejoulas pretas e cor-de-rosa, sapatos de salto pretos de verniz. 
A Joana e a Marta juntaram-se a nós já prontas também. Sentámo-nos na minha cama, à espera.
Do outro lado não se ouvia nada, a não ser a música da Francisca.
Decidimos descer, fomos ajudar a minha mãe na cozinha.
- Que lindas! - aprovou o meu pai, quando nos viu. - E a Francisca e a Linda? Deve ser uma tarefa difícil, a de convencer aquela menina a ficar mais apresentável.
- A Francisca consegue sempre o que quer! - disse a minha mãe. - Acho que vamos ter todos uma agradável surpresa. 
Mesa posta, comida a fumegar, um cheirinho de comer e de chorar por mais... A conversa decorria animada, quando surgiu pé-ante-pé a Francisca, seguida de uma rapariga completamente desconhecida.
 - Apresento-vos a Linda! - disse a minha irmã com o maior sorriso do mundo.
Como é que ela convenceu a Linda a tirar os piercings todos e a transformar-se numa princesa não sei, mas que a minha colega parecia outra, lá isso era verdade: tinha o meu vestido, os meus sapatos, o casaco da minha mãe, as pérolas nas orelhas em vez daquelas mil argolas que ela usava, nem a bola da língua, o brilhante do nariz, a bolinha preta da bochecha e a argola por baixo do lábio inferior escaparam. A maquilhagem disfarçou todos os buraquinhos!
- Meninas, sabem de que cor é o cabelo da Linda? - Perguntou a minha irmã com um brilhozinho nos olhos. - É ruiva. Já combinei com ela, amanhã vamos ao cabeleireiro mudar este negro azulado...
Nós olhávamos atónitas para aquela mudança que, pelos vistos, ainda não tinha acabado.
Jantámos e saímos.
- Quem não vai conhecer a Linda é o Gonçalo e o André, Margarida.
- Rita, apresentamos a Linda aos dois, dizemos que se chama Bruna e que é minha prima. Que acham? Topas, Linda?




sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ó Deus, a vossa amiga já caiu no lodo!

O Trabalho de Português está quase pronto. Assaltámos os caixotes de apontamentos e de fotocópias da minha mãe,  do tempo dela da Faculdade. Ela contou-me que estudara Os Lusíadas e a obra de Fernando Pessoa... 
Que sorte, Francisco! Havia tanto material. Espalhámos tudo na garagem. Quem não achou graça nenhuma foi o senhor raiz quadrada! Ia-lhe dando um ataque, uma coisinha má,  logo que entrou na garagem e viu aquele festival de papéis e livros e sebentas por todo o lado, e nós sentados no chão, qual ilhas, rodeados por um mar de papelada, velha e encardida, por todos os lados, e ainda os portáteis, canetas, lápis... canecas com chá, pratinhos com biscoitos e línguas-de-gato.
Era quinta-feira, a Francisca telefonou  a dizer que chegava à tarde. Com um pouco de sorte chega a tempo de conhecer a Linda. A minha mãe ainda não viu a Linda, só chega lá para o fim da tarde. O meu pai ficou de tal modo fulo com o espalhafato que fizemos na sua querida garagem que nem nos olhou, só disse:
- Quero esta balbúrdia toda arrumadinha, meninos!
Olhei para o Gonçalo e desatámos a rir, ele não viu de certeza a Linda, aliás, ele não viu ninguém...
Pegámos no material escolhido e nos portáteis e levámos tudo para o escritório. Colocámos o restante  material nos caixotes e deixámos a garagem de novo em ordem, como o senhor meu pai gosta.
Estávamos já no escritório a trabalhar, era preciso inserir os novos dados descobertos, quando de repente soou a voz doce da minha mãe:
- Então, como vai o trabalho, precisam de ajuda?
Levantámos a cabeça e encostado à ombreira da porta, estava o mais belo sorriso do mundo nos maiores  olhos de esperança que conheço.
- Linda, apresento-te a minha mãe!
- Olá Linda, muito prazer em conhecer-te! Viva Gonçalo! Então, André e Margarida? Como vai esse trabalho? Falta muito?
- Estamos a ultimar, a enriquecê-lo com alguns dados do tempo dos dinossauros que encontrámos nas catacumbas do senhor raiz cúbica...
- Hummm! Raiz cúbica... estou a ver que se chateou convosco!
- Tudo sob controlo - disse o Gonçalo - já arrumámos tudinho.
- Mãe, a Francisca vem hoje!
- Ora bem, que tal uns moranguinhos com iogurte? Comprei-os agora, se souberem como cheiram...
E desapareceu rumo à cozinha.
- Rita, a tua mãe é muito bonita, és parecida com ela! Tem cá uns olhos!
- Chega de conversa, toca a trabalhar.
Não, Francisco, a minha mãe não ficou impressionada com a figura da Linda, quer dizer, pelo menos, não o deu a entender.
Estávamos a comer os morangos, quando irrompeu pela cozinha a minha mana:
- Também quero! Viva pessoal, tudo bem?
Abraçou e beijou a minha mãe que lhe esticou a taça que acabara de preparar.
- Bem, tu deves ser a Linda! Mulher, que se passa contigo? O Carnaval não passou já ou sou eu que já perdi o tino? Adoro esse estilo, vai ser um sucesso no próximo baile... não achas, Rita! Pareceremos todos saídos de um qualquer filme de terror...
Eu fiquei de boca e olhos enormemente abertos a olhar a cara da Linda. O Gonçalo confirmava e sustinha, como podia, o riso, prestes a estalar. O André olhava-nos a todos entre divertido e preocupado. Se a Linda se passa, pensava, vai ser um Deus nos acuda. A Margarida engasgou-se e tossia aflita.
Para ajudar à festa, surge o meu pai a dizer que a cadela tinha feito umas escavações, que os buracos estavam cheios de água, que tínhamos de ter cuidado para não nos atolarmos no lamaçal... Nisto, encara com a Linda e disse com a cara mais pesarosa do mundo:
- Ó Deus, demasiado tarde, a vossa amiga já caiu no lodo!
E foi um estardalhaço de gargalhadas, a Linda desatou a rir e nós ficámos uns momentos sem saber se devíamos rir também. E rimos. E olhávamos uns para os outros e ríamos cada vez mais. Por fim, entre gargalhadas:
- Rita, a tua família é extraordinária, vocês são o máximo, nunca me ri tanto na minha vida. 
Cada vez que nos lembrávamos da cara do meu pai, não aguentávamos, a Linda imitava a Francisca e ria, ria, ria...
- Linda, vamos destapar a piscina no Sábado, queres passar o fim-de-semana connosco? - perguntou a minha doce maninha. - Margarida podes vir também.
Percebi logo a estratégia da Francisca.
O André segredou-me um vão ficar com a água da piscina toda suja. Cala-te, atirei-lhe. Olha, só o duche antes do banho não chega tornou ele, tens de a passar por várias águas, insistia. Pára com isso, sussurrei-lhe, já zangada.
Apitaram lá fora, eram os pais dos meus colegas.
- Conta comigo, Francisca, no Sábado cá estarei.
Foram-se. A Francisca piscou-me o olho e subiu para desfazer a mala...