sexta-feira, 19 de abril de 2013

A mudança e a nova amiga, a Bruna

Sábado de manhã. O meu pai, a minha irmã e eu a braços com a cobertura da piscina. Aquilo pesa horrores, mais do que o meu dinheiro e o da família inteira. A minha mãe observava lá de cima da varanda com um sorriso. O meu pai perdia a paciência com a nossa falta de jeito, dizia ele, mas era mais falta de força, dizia eu!
Por fim, lá conseguimos tirar o largo e pesado oceano azul de cima da água azul turquesa que brilhava e rebrilhava e reflectia o céu... Lavámos a cobertura, colocámo-la a secar na rampa que dá para a garagem e toca a aspirar a piscina e a pôr tudo em ordem para receber o pessoal, depois de almoço: cadeiras, espreguiçadeiras, mesas, almofadas, mantas,  o grande chapéu de sol... tudo cor-de-laranja a dar um ar colorido à relva verde e viçosa acabadinha de cortar. Ah,  e as tochas...
A minha mãe preparou umas pizzas e almoçámos, ali à beira da piscina, estirados ao sol.
Logo depois, chegou a Linda. Se não fossem os malditos piercings e a horrorosa roupa fúnebre, nem a tínhamos reconhecido: trazia uns calções pretos, uma túnica preta adornada com tachas e as botas horrendas que nunca tira. 
Será que dorme com elas? Mas que pergunta mais idiota, Francisco.
A cara lavadíssima, branca, o cabelo atado com uma fita negra e as unhas pontiagudas sem verniz.
Logo a seguir, chegaram duas amigas da Francisca e a Margarida.
A minha maninha anunciou que à noite íamos a um bar, que a roupa não era problema, que entre a roupa dela, a minha e a da minha mãe de certeza todas ficaríamos bem servidas.
A tarde foi agradável, rimos, contámos anedotas, tomámos banho, jogámos, ouvimos música... A minha irmã fingiu o tempo todo que lia um livro e observava a Linda. É claro que a doce Francisca estava a preparar alguma, ela ia lá para a noite com uma Linda feia! Não sei como é que vai convencer a minha colega a vestir outra coisa que não sejam os seus trapos pretos de luto cerrado!
A tarde começou a cair e um vento frio a levantar-se. Arrumámos tudo e rumámos a casa, tínhamos de tomar banho, arranjarmo-nos e jantar...
A Francisca convenceu a Linda a tomar banho e a arranjar-se nos seus aposentos. 
- Tu vens comigo. A Margarida vai com a Rita, a Joana e a Marta preparam-se no quarto de visitas... - decidiu ela.
Eu comentava com a Margarida a decisão da minha irmã.
- Aposto que não vamos reconhecer a Linda que vai sair do quarto da minha maninha! 
A Margarida dizia que não acreditava, que ainda se iam zangar...
A minha mãe preparava o jantar com o meu pai lá em baixo e riam não sei de quê. Eu conseguia ouvir o riso e a voz da minha mãe.
- Rita, a tua mãe tem uma voz tão bonita, as aulas dela devem ser deliciosas!
- Sim. Margarida, sabem a morangos com chocolate!
- Que tonta, Rita, estou a falar a sério!
A minha irmã bateu à porta:
- Rita, empresta-me aquele vestido branco com o peitilho de renda e os teus sapatos cor de pérola... Vai-me buscar o casaco branco da mãe, aquele que eu gosto.
Olhei-a estupefacta, vestido branco, sapatos pérola, casaco branco!...
- Ah, empresta-me aí os teus brincos: as pérolas pequeninas e as outras maiorzinhas...
Entreguei-lhe tudo com um monte de perguntas a bailar-me na ponta da língua, mas ela virou costas e desapareceu.
A Margarida olhava para mim e sorria, enquanto pintava os olhos. Estava gira, de saia preta com lantejoulas e blusa rosa com uns desenhos bordados com lantejoulas pretas e cor-de-rosa, sapatos de salto pretos de verniz. 
A Joana e a Marta juntaram-se a nós já prontas também. Sentámo-nos na minha cama, à espera.
Do outro lado não se ouvia nada, a não ser a música da Francisca.
Decidimos descer, fomos ajudar a minha mãe na cozinha.
- Que lindas! - aprovou o meu pai, quando nos viu. - E a Francisca e a Linda? Deve ser uma tarefa difícil, a de convencer aquela menina a ficar mais apresentável.
- A Francisca consegue sempre o que quer! - disse a minha mãe. - Acho que vamos ter todos uma agradável surpresa. 
Mesa posta, comida a fumegar, um cheirinho de comer e de chorar por mais... A conversa decorria animada, quando surgiu pé-ante-pé a Francisca, seguida de uma rapariga completamente desconhecida.
 - Apresento-vos a Linda! - disse a minha irmã com o maior sorriso do mundo.
Como é que ela convenceu a Linda a tirar os piercings todos e a transformar-se numa princesa não sei, mas que a minha colega parecia outra, lá isso era verdade: tinha o meu vestido, os meus sapatos, o casaco da minha mãe, as pérolas nas orelhas em vez daquelas mil argolas que ela usava, nem a bola da língua, o brilhante do nariz, a bolinha preta da bochecha e a argola por baixo do lábio inferior escaparam. A maquilhagem disfarçou todos os buraquinhos!
- Meninas, sabem de que cor é o cabelo da Linda? - Perguntou a minha irmã com um brilhozinho nos olhos. - É ruiva. Já combinei com ela, amanhã vamos ao cabeleireiro mudar este negro azulado...
Nós olhávamos atónitas para aquela mudança que, pelos vistos, ainda não tinha acabado.
Jantámos e saímos.
- Quem não vai conhecer a Linda é o Gonçalo e o André, Margarida.
- Rita, apresentamos a Linda aos dois, dizemos que se chama Bruna e que é minha prima. Que acham? Topas, Linda?




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