segunda-feira, 25 de março de 2013

Quem namora pelo fato, leva o diabo no contrato

A minha mãe acha que não devemos condenar as pessoas, logo à partida, sem as conhecermos, só porque são diferentes de nós - Quem namora pelo fato, leva o diabo no contrato. A roupa não interessa, o aspecto também não deveria interessar, o importante é o que somos por dentro e o que está no  interior de cada um, não é visível aos olhos, é-o somente ao coração. Não devemos tecer juízos de valor, considerações..., antes de conhecermos as pessoas. Ficaram espantados com o aspecto da Linda, não estavam à espera..., compreendo, mas reprovo... 
Francisco, foi sobre a Linda a nossa conversa ao jantar!
O meu pai desculpou-nos, disse que também ele teria dificuldade em permanecer indiferente a tão estranha criatura e achou que os meus colegas até tinham algum sentido de humor... A senhora eufemismo lançou-lhe um olhar reprovador e o meu pai só não corou porque é demasiado moreno, mouro, como ele diz.
A Francisca ouvia calada, meditativa e olhava-nos com um sorriso traquina na boca bonita. Deve estar a preparar a sua intervenção apoteótica, pensei.
- Olha, Rita, convida-a para passar cá um dia connosco e vais ver a transformação da "piquena"! - disse ela a rir e a piscar-me o olho.
Pronto, se há alguém no mundo capaz de transformar uma gata borralheira numa princesa, é sem dúvida a minha doce maninha.
O meu pai apoiou logo:
- Faz isso, Rita! Já estou a imaginar a Linda a sair daqui linda...
- Não acham que estão a pôr o carro à frente dos bois? - lembrou a minha mãe. - Falam como se já fossem amigos íntimos da rapariga.
- Ora, mãe, a santa Rita trata disso! Amanhã já é a melhor amiga, a salvadora, a defensora da mártir Linda, a bruxa negra... - atirou a minha irmã, sorrindo e com um brilhozinho no verdor dos seus olhos grandes.
- Bem, Francisca, também tu...
- Sim, querida mana, Santa Rita, a defensora dos "cachorrinhos abandonados"...
- Mas, estão a falar de quê? - perguntou o meu pai. - Cachorrinhos abandonados?
- Isso são coisas nossas, pai, nem queiras saber... - atalhou a Francisca, piscando-me o olho.
Uma coisa é certa, Francisco, eu já estou mesmo a ver o rebuliço que a Francisca vai fazer à pobre da Linda. Até já estou a ouvir a água a correr na banheira, a ver a espuma a formar-se, as pétalas de rosa, os sais... Já consigo até sentir o cheirinho bom em toda a casa...
A água toda negra, no fim? Ó Francisco, és mesmo mauzinho! Temos de passá-la por várias águas? Pára com isso, Francisco! Que mau! Já não te conto mais nada! Conto? Sabes que conto! Tens-te em muito boa conta, tu!
Amanhã, vou falar com a Linda e como quem não quer a coisa, vou perguntar-lhe por que razão se esconde por baixo daquela maquilhagem e roupa fúnebres.
Olha, vou dormir, até amanhã!


sexta-feira, 22 de março de 2013

A Linda

Ele há gentinha muito parvinha, Francisco! Foi o que pensei de dois dos meus colegas, mas depois...

Vou contar-te o que sucedeu na aula com a DT. A professora avisou-nos que a nossa turma iria receber mais uma aluna. Eu pensei logo: esta turma parece mais um terminal do aeroporto, está sempre a sair e a entrar gente! Mas, mantive-me calada e atenta à explicação da professora. Era preciso acolhermos a colega da melhor maneira, uma vez que era a terceira escola que ela frequentava este ano. Não tinha conseguido integrar-se nas duas escolas por onde passou. 
Chama-se Linda. 
O Gonçalo e o André disseram logo que já estavam a ver qual era o problema da Linda... A professora mandou-os calar, mas eles continuaram, atrás de mim, a cochichar e a rir. Deve ser feia, feia, feia..., como diz a minha irmã da bruxa da história que a minha avó lhe conta,  e o nome não condiz com a personagem... Aí, desatou tudo a gozar com ela, parece que já estou a ver o filme, dizia o Gonçalo. Virei-me para trás e atirei-lhe um olhar fulminante, tiraram-me a língua e riram-se.
- Ó professora, não tem a fotografia da nova colega para vermos se ela é mesmo linda! - disse o André, arrancando uma gargalhada a alguns colegas.
Esta atitude valeu-lhe um valente raspanete! A professora não foi nada meiga, nada mesmo! Terminou o discurso, dizendo que não admitia que alguém  troçasse da colega. Mas, o Gonçalo insistia: 
- Era bom sabermos como ela é, para não haver surpresas!
A professora acabou por dizer que não sabia como era a colega, que só sabia da vinda dela para a turma e rematou a conversa com um, ora vamos lá trabalhar!
No fim da aula, a professora ainda disse que esperava que a turma recebesse bem a Linda  e que a fizesse sentir-se em casa. 
O André armou-se em chico esperto e disse trocista:
- Ó professora, aqui na turma quem é a Nossa Senhora dos aflitos e dos  desprotegidos é a Rita.
- A santa Rita! - afirmava, muito senhor de si, o Gonçalo, piscando-me o olho.
Dei-lhe um empurrão e desatámos a rir.
- Com que então santa Rita, eu já te dou a santa!

No dia seguinte, Francisco, estávamos na aula de Matemática, quando bateram à porta. O professor abriu e a funcionária trazia consigo a Linda. Ficámos todos a olhar! A Linda estava vestida de preto da cabeça aos pés. Parecia um corvo! O cabelo muito preto, pintado, e totalmente desgrenhado, os olhos eram um borrão negro, os lábios e as unhas pintados também de preto. Uma saia comprida, uma camisola larga e grossa, de malha, cheia de tachas, umas botas horrendas, desapertadas, uns cintos que se cruzavam pela anca e pela cintura, um cachecol enrolado ao pescoço... Até o professor ficou especado a olhar, não dizendo palavra. Olhávamos a rapariga, totalmente estupefactos... Por fim, acordámos, com a voz da funcionária a dizer: é a aluna nova, foi a DT que me mandou trazê-la à aula. O professor apontou um lugar vazio e nós continuávamos de bocas e olhos muito abertos. O professor começou a fazer perguntas à nova aluna, mas confesso-te, Francisco, não sei o que ele perguntou nem o que ela respondeu... Só pensava, ela precisa de tomar um grande banho, tirar aquele manto negro com que se cobre e vestir-se e pentear-se como qualquer pessoa da nossa idade. O Gonçalo ia gaguejando:
- Mas, isto é muito pior do que eu pensava!
E o André concordava, acenando a cabeça, incrédulo. E de repente, deixou sair um:
- Ai, Santa Rita, nos valha!
E foi um riso pegado, o professor bem tentava manter-se sério! Eu olhava para a rapariga, para o André, para o professor que não estava a perceber a razão daquele ai tão grande, nem o que tinha a santa Rita a ver com aquela situação...
- Creio que a santa Rita, desta vez, não pode fazer nada!... - disse eu com o ar mais desconsolado que podia haver.
O professor olhava-me inquiridor. E o Gonçalo deixou escapar:
- Isto é bem pior do que eu imaginava, é que nem dá para ver se ela é linda ou feia! Parece uma bruxa, a bruxa da história da minha irmã. 
A rapariga não ouviu, manteve-se quieta no lugar.
Agora, Francisco, não sei como vai ser, não me parece que a turma a vá aceitar, ela mete medo, pior, a Margarida disse logo que ela devia ter piolhos e que lhe metia nojo...
Hoje, ninguém falou com ela, todos se afastaram e eu também não consegui aproximar-me dela. Vamos ver como vai ser o dia de amanhã, ainda bem que temos logo ao primeiro tempo aulas com a DT.

domingo, 10 de março de 2013

Tenho dois namorados e...

Francisco, tenho andado ocupada: testes, trabalhos, estudar, estudar, estudar... Mas, pronto, cá estou para te contar acerca do baile de máscaras.

Chegámos ao salão e ao entrarmos, toda a gente se virou, nunca tinham visto tantas sevilhanas todas igualzinhas e, quando digo iguaizinhas... é porque éramos mesmo todas iguaizinhas! Fizemos o que a  Francisca nos pediu: um grupo ficou perto da porta, o outro perto do conjunto musical, ou seja, em lados completamente opostos. Ela desapareceu por alguns minutos. Dançávamos já todas animadas, quando apareceu a minha doce maninha com o Carlos... 
Lembras-te do Carlos, Francisco, o namorado de Lisboa da minha irmã. Sim, era do Cartaxo, mas estava a estudar em Lisboa.
O rapaz ficou meio à toa no meio de tanta sevilhana e tentou não perder a Francisca de vista. A minha mana, entretanto pediu-me que fosse com ela à casa de banho! Fiquei a olhar para ela, mas ela puxou-me por um braço e levou-me a trote. Na casa de banho, disse-me que estava à espera de outro rapaz e que eu tinha, de vez em quando, de me fazer passar por ela! Abri de tal modo os olhos, por detrás da máscara, que ela desatou a rir e a dizer que os meus olhos estavam prestes a saltar dos buracos da caraça para fora. 
- De vez em quando, tenho de fazer-me passar por ti? - balbuciei incrédula. E ela trocista:
- Sim, Francisca II, danças ora com o Carlos, ora com o Pedro. Percebeste ou tenho de fazer um desenho?
- Está doida? Só podes estar doidinha de todo! E quem é esse Pedro? 
- O Pedro é um rapaz que me adora, conheci-o numa festa na praia. É lindo, simpático, vais gostar dele, tenho a certeza.
- Francisca, isto é de doidos, vamos ser descobertas!
- Não vamos nada, eu danço com o Carlos, enquanto tu danças do outro lado da sala com o Pedro. Depois, eu invento uma desculpa, deixo o Carlos e troco contigo. Quando me vires surgir, dás uma desculpa ao Pedro... Eu apareço ao Pedro e tu ao Carlos e assim por diante... Vai ser divertido! Imagina, os dois a pensarem que estão a dançar comigo.
- Tu és doida varrida e ninguém sabe! Depois disto, se sobrevivermos, peço ao pai para te internar.
- Vai correr tudo bem, vais ver!
- Se eles descobrem?
- Não descobrem nada! Vamos lá! Agora eu fico com o Carlos e daqui a três músicas, trocamos. Encontramo-nos sempre a meio do salão, do lado das janelas. A que chegar primeiro, espera pela outra, Ah, temos de fazer com que as nossas amigas não se espalhem pelo salão, os dois grupos devem estar sempre no seu lugar, como combinámos. Mas, isso já está tudo mais que acertado. Olha, não te esqueças de rir, nem era preciso dizer-te, nisso és bem parecida comigo: a vida leva-se melhor a rir!
- Ai, Francisca, vou rezar a todos os santinhos para que isto dê certo! Queres dizer-me...  afinal, tens dois namorados, é isso?
- Não tenho nenhum, sou livre, completamente livre, mas eles pensam que sim, que sou namorada deles..
- Coitados, Francisca!
- Pronto, já cá faltava a defensora dos pobres e dos oprimidos! Eu não faço mal nenhum, nunca lhes disse que gostava deles, nem a um nem a outro... É a única maneira de se sentirem os dois felizes! E não penso ficar com nenhum dos dois, podes crer. 
Segui a minha irmã até à porta.  Ela dirigiu-se a um rapaz de cabelo escuro e olhos azuis, tocou-lhe no braço e disse-lhe qualquer coisa. Ele deu-lhe a mão e avançaram para o meio das outras sevilhanas, juntei-me a eles e, de repente, a minha irmã desaparecera e vi-me a dançar com o Pedro.
A minha maninha tinha ido para a outra ponta da sala dançar com o Carlos, Francisco! Ah, já percebeste!
Dancei três músicas com o Pedro, disse-lhe que voltava logo e afastei-me ao encontro da Francisca. Cruzámo-nos a meio do caminho, ela apertou-me a mão enluvada e seguimos cada uma para o seu lado.
- Não demoraste mesmo nada, a tua maninha estava a portar-se bem? - perguntou o Carlos, enlaçando-me.
Assenti com um gesto e rodopiei, levada no abraço dele, leve, leve, leve...
- Já sei, vais dar uma espreitadela à Rita! - disse-me, quando me viu afastar. Não demores. 
E mais uma vez, me vi entre os braços do Pedro. Era um abraço mole, molenga, preferia os braços do Carlos, fortes, prendiam-me, parecia ter medo que eu lhe escapasse, não sei! O Pedro passava o tempo a segredar-me ao ouvido e parecia feito de gelatina. Queria que as músicas passassem depressa para trocar de par.
E mais uma vez me vi entre os braços do Carlos:
- Francisca, tu  pareces duas pessoas: meiga, embora absorta, pensativa, a deixares-te levar como uma pena; depois, de repente, transformas-te e és um vendaval, uma tempestade e rodopias como um tornado, levas tudo à frente, levas-me... És realmente única, por isso te amo. Mas, tu não me amas, não é?
Escapei-me à resposta para ir dar uma vista de olhos à "Rita". Pelo caminho ia a pensar, a minha irmã mete-me em cada uma...
O Pedro abriu os braços moles para me acolher e disse:
- Isto de teres de tomar conta da tua maninha é uma boa chatice, não é?
Concordei, com vontade de matar a Francisca.
Estás curioso com uma coisa, Francisco? Ah, como fizemos quando viemos embora? Ah, foi fácil! Isso já tínhamos combinado antes.
À hora estipulada, o grupo juntar-se-ia à porta e, na confusão da despedida, no meio de tanta sevilhana, sairíamos, despedindo-nos todos com um até mais logo e pronto.
Bem, a minha última dança foi com o Carlos, ainda bem, gostei de dançar com ele, gostei de me sentir segura. Quando tiver um namorado, tem de me agarrar como o Carlos, fazer-me voar sem me deixar cair...
Não fiquei nada apaixonada pelo Carlos, és tonto, Francisco! Ele é muito mais velho do que eu, ele até é mais velho do que a Francisca...
E pronto, terminou o baile, juntámo-nos todas e, ala que se faz tarde. Despedimo-nos dos rapazes todos que tinham estado no grupo, incluindo o Pedro e o Carlos:
- Um resto de boa noite, Francisca, tira a máscara, queria um beijinho...
Acenei um não e afastei-me agarrada à minha irmã e à Joana. Pelo caminho, a conversa foi animada, mas eu só queria aterrar na minha doce caminha e dormir, dormir, dormir...